Relatório IFS Macroeconomia - Mercado de Crédito por Bruno Mariani e Eduardo Tadeu Telhada

Com o objetivo de interpretar a situação do crédito no país, realizamos uma análise com o intuito de obter um panorama geral, olhando para os indicadores de crédito livre e direcionado, tanto para pessoa jurídica quanto pessoa física. Entre eles, as Concessões de Crédito, o Indicador do Custo de Crédito, a Inadimplência da Carteira de Crédito, o Spread Médio das operações, assim como a Taxa Média de Juros das operações de Crédito, e por fim o Saldo da Carteira, tão como os saldos por setores, sendo agropecuário, industrial e de serviços, quanto o saldo da carteira em relação ao PIB.

Portanto, feita a análise em cima dos indicadores, liberados pelo Banco Central do Brasil, sendo os últimos dados com relação ao mês de julho de 2020, alguns pontos foram classificados como relevantes, e merecem atenção.


I. Evolução do crédito: Concessões


O primeiro ponto que queremos destacar é a evolução do crédito, do ponto de vista das concessões. As concessões de crédito livre apresentaram alta de 5.71% no acumulado do ano, 8.47% no acumulado em 12 meses e variou 9.41% de junho para julho. Esse efeito pode ser explicado pelas concessões de crédito para pessoa jurídica, que obtiveram alta de 14.25% no acumulado no ano e 13.39% no acumulado em 12 meses.

Na variação mensal, de junho para julho, obteve alta de 13.25%, mantendo a tendência de alta. As concessões de crédito para pessoa física apresentaram queda de 1.74% no acumulado no ano, com uma alta pouco significativa no acumulado em 12 meses. Isso pode estar mostrando que o crédito esteve sendo direcionado principalmente para um auxílio às empresas durante o momento da pandemia.

Olhando para dentro dos dados de concessões de crédito livre para pessoa jurídica, julgamos pertinente destacar as concessões para capital de giro das empresas. No acumulado no ano, o indicador apresenta alta de 87.55%, seguido de 68.36% no acumulado em 12 meses. Impacto muito significativo advindo dos efeitos da pandemia, em que as empresas buscaram capital para tentar se manter com os pés no chão e conseguir passar esse momento, como apresentado na figura 1, abaixo. Ainda olhando para o impacto que a pandemia trouxe no mercado de crédito, vale destacar também as concessões de crédito para antecipação das faturas do cartão de crédito, que obtiveram alta de 31.27% no acumulado no ano e 29.45% no acumulado em 12 meses, mantendo a tendência de alta na variação de junho para julho também.

Outro destaque que achamos importante dar atenção, foram as concessões para financiamento tanto de importações quanto de exportações. No acumulado no ano, os dois indicadores apresentam uma alta de aproximadamente 46% e uma média de 32% no acumulado em 12 meses. Vale ressaltar também que o financiamento para exportações, que estava em aproximadamente R$ 18 bi no mês de março, passou para quase R$ 1 bi em julho, impacto que pode ser explicado pelo fato de o câmbio estar apreciando no período.




Partindo agora para as concessões de crédito direcionado, mais especificamente o crédito rural, crédito imobiliário e o microcrédito, o indicador para pessoa física apresentou um aumento significativo de 15,94% no acumulado do ano e 14,2% no acumulado em 12 meses. Esse aumento foi guiado, principalmente, pelo crescimento do crédito destinado a fins rurais e imobiliários.

No cenário rural, o crescimento foi de 20,5% no acumulado do ano e 12,83% no acumulado em 12 meses, com variação mensal de 7% no último período, de junho para julho. Já no cenário imobiliário, o aumento foi de 15,7% no acumulado do ano e 17,1% no acumulado em 12 meses, com sua última variação mensal de 13,4%, de junho para julho.

O crédito direcionado para PJ também apresentou resultados expressivos, com um aumento de 53,91% no ano e 25,21% no acumulado em 12 meses, tendo a variação mensal de junho para julho de 139,19%. Pode-se afirmar que tais números se justificam pelo período de pandemia e a injeção de liquidez do sistema financeiro para auxiliar empresas.

O setor imobiliário apresentou o maior aumento quando tratamos de crédito direcionado para PJ, com um aumento no ano de 66,04% e 21,91% no acumulado em 12 meses, com variação mensal de 2,26% no período de junho até julho. Outro setor importante foi o setor rural, que apresentou um aumento de 16,30% no ano e 13,91% no acumulado em 12 meses, com variação mensal de -9,85%.


II. Indicador do Custo de Crédito


Agora falando sobre o indicador do custo de crédito (ICC), que nos dá um prospecto do quão barato ou quão caro está o crédito no país, apresentou queda nos indicadores tanto para o crédito livre, quanto direcionado. No acumulado do ano, o ICC livre registra queda de 13.01%, seguido de 9.02% no acumulado em 12 meses. Abrindo os dados para PJ e PF, observamos também quedas significativas, o que mostra que o crédito livre vem ficando cada vez mais barato tanto para as empresas, quanto para as famílias.

O mesmo foi observado no ICC direcionado. No acumulado do ano, o indicador apresenta queda de 2.41%, junto de uma queda de 1.91% no acumulado em 12 meses e segue a mesma tendência, dado que na variação mensal, apresentou uma queda de 0.40% em média tanto para PJ quanto para PF.

Concluímos, portanto, que a medida que o crédito vem sendo liberado, ele vem ficando cada vez mais barato também, o que é um bom indicador de um estímulo para a economia.


III. Taxa de Juros e Spread


A taxa média de juros das operações de crédito no sistema financeiro apresentou queda de 17.58% no acumulado no ano, seguida de -11.91% no acumulado em 12 meses e vem seguindo a mesma tendência na variação mensal de junho para julho, recuando 3.19%. Esse movimento vem acompanhado da redução da taxa básica de juros da economia, a Meta SELIC, que recuou de 4.5% para 2% no ano.

Essa taxa média de juros para as operações de crédito seguiu o movimento esperado, dado que com a incerteza no começo da pandemia, já era esperado que muitas empresas e famílias precisariam de crédito, e com o aumento da oferta de crédito, causado pela redução do compulsório, ele foi ficando cada vez mais barato e acessível, dado que a gente observa quando abrimos os dados para PJ e PF, em que apresentam uma queda de aproximadamente 24% no acumulado do ano, e 17% em média no acumulado em 12 meses.

Outro indicador que gostaríamos de destacar aqui é o spread médio das operações de crédito. Dado que observamos quedas substanciais nas taxas médias de juros cobradas em novas operações de crédito, o spread médio, que é a diferença entre essa taxa de juros e o custo de captação desse crédito, também apresentou quedas significativas. No acumulado do ano, vem recuando 14.63%, acompanhado de -7% no acumulado em 12 meses, seguindo a mesma tendência de queda na variação mensal, com -3.07%. Isso é um indicador também de que o custo médio de cada operação de crédito, ponderada pelas concessões, vem caindo.




IV. Inadimplência


Os dados sobre inadimplência se demonstraram relevantes, tanto em aspectos positivos quanto negativos, quando observamos os resultados apresentados para PJ e PF. Devido à forte injeção de liquidez e barateamento de crédito para empresas, os níveis de inadimplência para PJ apresentaram resultados positivos e otimistas. Já para PF, os resultados se demonstraram preocupantes, principalmente levados pelo aumento de desemprego durante o período de pandemia e pela maior dificuldade para liberação de crédito pelo sistema financeiro para essa parcela.

Quando analisamos a concessão de crédito livre, observamos uma queda de 20,66% no percentual de inadimplência para PJ no acumulado do ano, e uma queda de 20,11% no acumulado em 12 meses, com variação mensal de -7,96% entre junho e julho, efeito esse que pode ter sido sentido pelo fato de que as taxas médias de juros cobradas para cada nova operação, vem caindo também, como mostrado no gráfico abaixo. No crédito direcionado, a queda foi de 4,19% no acumulado do ano, com um leve aumento de 1,23% no acumulado do ano, com variação mensal de -2,05% entre junho e julho.

Já quando analisamos a concessão de crédito livre para PF, observamos um aumento de 9,29% no nível de inadimplência no acumulado anual, e 6,1% no acumulado em 12 meses, com variação mensal de -3,43% entre junho e julho. No crédito direcionado o aumento foi ainda mais preocupante, com níveis de 13,33% no acumulado anual e 9,81% no acumulado em 12 meses, com variação de -7,93% entre junho e julho.



V. Saldo de Crédito


Analisando por fim a evolução do crédito, agora do ponto de vista do saldo da carteira de crédito do SFN, no acumulado do ano o saldo apresentou alta de 16.10%, acompanhado de 14.98% no acumulado em 12 meses, seguindo a mesma tendência de alta na variação mensal, com 0.78% de junho para julho. Abrindo os dados para PJ e PF, observamos alta de 20.90% no acumulado no ano para PJ e 12.24% para PF. No acumulado em 12 meses, os dois indicadores seguem uma alta de aproximadamente 15%, e seguindo a mesma tendência de alta na variação mensal também.

Separando agora o saldo de crédito por setores, pudemos observar uma certa divergência entre os valores apresentados por cada um. Apesar de todos seguirem tendências similares de aumento do percentual do saldo nos dados acumulados, seus níveis de crescimento apresentam algumas diferenças e devem ser ressaltados.

Na Agropecuária, o saldo de crédito aumentou em 2,06% no acumulado do ano, e demonstrou uma queda de -0,3% no acumulado em 12 meses, com variação mensal de -1,04% entre junho e julho. O setor industrial apresentou dados muito parecidos, com um aumento de 2,33% no acumulado do ano, queda de 1,85% no acumulado em 12 meses e variação mensal de 1,18% entre junho e julho. O setor mais discrepante foi o setor de serviços, que apresentou um aumento de 14,19% no acumulado do ano, 11,37% no acumulado em 12 meses e uma variação mensal entre junho e julho de 1,32%.

Agora olhando para o saldo como porcentagem do PIB, observamos aumentos significativos também tanto para pessoa jurídica quanto para pessoa física. Para pessoa jurídica, no acumulado do ano o aumento foi de 16.51%, seguido de 11.56% no acumulado em 12 meses. Para pessoa física, acelerou 8.12% no ano, com um aumento de 9.17% no acumulado em 12 meses, seguindo a mesma tendência de alta na variação de junho para julho, tanto pessoa jurídica, quanto pessoa física.



88 visualizações1 comentário

Posts recentes

Ver tudo